Caminhar juntos

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sentido do alimento

Ontem, diante da TV, ouvi alguém fazendo algumas considerações sobre o alimento e como se deve alimentar. E fiquei como a ruminar a minha maneira de ver as coisas : há um tipo de alimento que dá vida ao corpo, há outro que dá vida ao espírito. O homem tem necessidade dos dois. Sempre que falta um, o homem perde sua identidade. O alimento do corpo cria essa vida que aí vemos e sentimos. Sem ela a definição de um vivente não se resolve.

Por pão denominamos tudo aquilo que leva não só à sustentação da vida, mas a alimenta e promove. Por extensão, passa a simbolizar a palavra, que mantém e exercita as atividades do espírito, representadas no homem pela sua inteligência e vontade. Pelo espírito, o corpo se manifesta com a força do pão material, enquanto, pelo corpo, o espírito se transporta para os costumes de uma comunidade de mesa. Assim sublinhamos as qualidades ou marcamos grosseiramente a cumplicidade de nossas fraquezas humanas, quando a palavra que nos deveria ativar o espírito cria um patamar de degradação e amofina o homem.

O pão da palavra é dado por inteiro. Não faz partilha nem há economia. Ele satisfaz na medida de cada um e cria condições para que todo ele possa ser aproveitado. O bom ou mau uso vai depender de quem o toma. O que não acontece com o alimento material que segue as regras da natureza e fica nas limitações de sua necessidade. Com os outros, os dois devem ser divididos e multiplicam a vida na generosidade de sua partilha. Ambos ganham a força de um grande amor, quando oferecidos com desprendimento e desinteresse.

sábado, 14 de maio de 2011

Você não esteve no mural

Tive um colega com o nome de Diomedes, jovem renitente, insistente e de temperamento impulsivo. Um dia, quando, juntos, assistíamos a uma peça teatral, sem que eu esperasse, me veio com essa pergunta : você sabe o que é Atlantes? Para não desviar minha atenção sobre o eloqüente diálogo que se desenvolvia no palco entre os atores, respondi não por responder. E Cariátide, insistiu ele, como a querer minha atenção sobre o seu desinteresse sobre a peça. Também não, respondi secamente sem ao menos voltar-me para ele, preso que estava à cena desenvolvida no palco. E você sabe...

Interrompi-o, já com os nervos à flor da pele, deixando-o no ar com uma pergunta minha, expressando um sentimento de desaforo : você sabe o que significa Diomedes? Ele olhou para mim bastante confuso e mergulhou num profundo silêncio como a querer procurar no fundo da cabeça uma explicação e balbuciou vencido : não sei e você? Sabe? Neste ínterim eu já havia perdido toda a trama que se passava no palco e o interroguei :

Sua mãe por acaso se chama Deípila? Não, respondeu. E seu avô tem o nome de Adrasto? Não, voltou a responder. Você é casado com Egialéia, não? Nãaaooo.. Ora, amigo, você sabe que sou solteiro. Sei não. Mas você esteve na guerra de Tróia? Que isso, companheiro!... Então, quem tomou os cavalos de Reso? Foi você sim, fui categórico. Então ele levantou a voz, insurgindo-se contra mim : você está fazendo hora com minha cara!.. De jeito nenhum. Ora, Diomedes, se você tivesse prestando atenção, entenderia por que estão dizendo lá no palco que você sumiu misteriosamente... Neste momento, Diomedes resmungou e saiu pisando duro, abandonando o teatro...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Somos ainda fracos de espírito

Sou pequeno demais para ter uma palavra contra o Supremo Tribunal Federal, mas nem por isso deixo de tê-la. Sim, porque me senti desamparado, menos estruturado, com a decisão desta Instância do Poder, a união entre pessoas do mesmo sexo. Pensava eu tratar-se de magistrados sintonizados com a ordem dos princípios do direito natural. Ora, como pode magistrados de uma Corte de tamanha magnitude relegar o fundamento dos seus próprios princípios e ordenamentos de julgar?

Se é na família, unicamente ali, o lugar próprio e inicial para a formação do indivíduo, a cartilha de concatenação de suas possibilidades e o amálgama adequado e genuino à formação de sua personalidade, os ingredientes filigranados e capilares de seus caracteres individuais, como não reconhecer as potencialidades complementares das aptidões adquiridas apontadas no sexo, na idade, no valor fisiológico, moral ou mesmo fisiológico?

É de se lamentar a ostentação deste estandarte modernista. Ou atribuimos o fato à fraqueza de uma Instituição ou reconhecemos nela a vaidade de ser promotora da miragem de um progresso para a satisfação desmedida de um povo em decadência. A nação não é uma realidade abstrata, mas uma característica essencial, expressa e reconhecida concretamente na evidência de uma comunidade humana, subordinada à natureza do ser humano que busca trilhar os caminhos de uma sociedade melhor e mais perfeita. Não podemos brincar com o faz-de-conta que acertei.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Vida dos que temem a Deus

Senti-me, no mínimo, indelicado senão injusto, quando o mundo se arvorou e eu me calei na morte de João Paulo II. Tantos ensinamentos ali bebi, como água pura daquela fonte cristalina que foi, em vida, este peregrino da esperança. Por certo o meu espírito não possui aquela acuidade das almas fortes que marca os verdadeiros filhos de Deus.

Aprendi a admirá-lo naquele encontro com as famílias, lá no Maracanã, em 1977. Vi de perto e quase toquei aquele santo, que passava perto de nós. Ali estava, diante dos meus olhos, um homem desperto, inteligente, entusiasta e santo, impescindível ao equilíbrio humano e mental da gente brasileira.

Enquanto o povo esperava uma reprovação enérgica e impiedosa às filosofias que embruteciam a alma do povo brasileiro, ela não veio. Enquanto o povo aguardava a acusação condenatória à fermentação criminosa de uma minoria organizada e agressiva da gente brasileira, a acusação não se deu. Enquanto o povo buscava justificativa para descaracterizar o movimento em favor do aborto, da eutanásia, do tráfico de órgãos, o pito não veio. Enquanto o povo dimensionava a condescendência insana aos serviços médicos oferecidos para uma morte tranquila e agradável dos doentes terminais, a comiseração não veio.

O João de Deus apontou caminhos que levam à construção de um mundo melhor no seio da família, sem ao menos tanger a ansiedade do povo, deixando sua consciência arrefecida com um impiedoso balde de água fria. O assunto era família com novas dimensões abertas para sua reconstrução.

Eu me calei. Minha casa silenciou. O mundo tem caminhos ínvios e nós, como não acreditando, paramos estupefatos, esperando não sabemos o quê. E João Paulo tomou a iniciativa para seguir a proposta do caminho mostrado por Deus. E nós o seguimos. E aqui, quando a justiça se esvai aos nossos olhos e nos sentimos sem entender certas coisas da vida, é porque ela entrou noutra porta que Deus abriu para nós. Agora João Paulo é o nosso mais novo beato já que acreditou nos critérios, naquele momento, revelados por Deus.
É assim a vida dos que temem a Deus.